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Ode ao Teatro Experimental do Negro e a Abdias do Nascimento: “O TEN foi o grande articulador do seu tempo”, diz Guilherme Diniz

No Ateliê de Ideias 3, do sexto dia do Melanina Acentuada – Ano VIII, Guilherme Diniz, Paulo Guidelly e Linconl Oliveira celebram o legado do Teatro Experimental do Negro e de Abdias do Nascimento…

No Ateliê de Ideias 3, do sexto dia do Melanina Acentuada – Ano VIII, Guilherme Diniz, Paulo Guidelly e Linconl Oliveira celebram o legado do Teatro Experimental do Negro e de Abdias do Nascimento para o Brasil, refletindo sobre sua importância para as questões raciais, sociais, culturais e políticas do país e para suas trajetórias como pesquisador e artistas. 

Foto: Laboratório Z.


As produções teatrais negras na contemporaneidade invadem as cidades, ganham prêmios e são reconhecidas pela crítica, pela academia e pelo público. Contudo, esse cenário, que ainda não é o ideal para muitos trabalhadores negros do teatro brasileiro, nem sempre foi assim. Quando se retoma a historiografia das artes dramáticas negras no Brasil, o Teatro Experimental do Negro (TEN) se mostra de suma importância para possibilitar algumas aberturas e rasuras num cenário historicamente branco.

Uma das especificidades do TEN foi colocar pessoas negras como protagonistas das peças e levar ao tablado temáticas culturais, históricas e religiosas do povo negro. A proposta contrastava com o lugar que personagens negros ocupavam no teatro brasileiro antes, como escravizados, subalternos ou ladrões, reforçando discursos racistas. Ao fundar o TEN, Abdias do Nascimento cria o grupo para pensar essa virada de chave e apontar outras/novas formas de representatividade e imaginários sobre o sujeito negro no Brasil.

No penúltimo dia do Melanina Acentuada – Ano VIII, a tarde de domingo foi dedicada ao pesquisador das teatralidades negras e finalista do Prêmio Jabuti Acadêmico 2026, Guilherme Diniz. Em seu livro Teatro Experimental do Negro: histórias, críticas e outros dramas (Temporal Editora, 2025), lançado neste domingo (02/08) em Salvador, o autor se dedica ao TEN, abordando sua dramaturgia, sua crítica e a história do grupo, fundado há 80 anos. 

A tarde começou com o Ateliê de Ideias 3, que reuniu num bate-papo o autor do livro e os atores Paulo Guidelly e Linconl Oliveira, da peça Abdias do Nascimento. A mediação de Eugênio Lima, diretor do espetáculo, começou explicando que as rodadas de perguntas seguiriam os subtítulos do livro de Diniz: primeiro, a história de cada um com o TEN; depois, a crítica; e, por fim, os “outros dramas”.

Ao ser questionado sobre a pesquisa, fruto de sua dissertação de mestrado, que analisou a recepção crítica das obras do TEN e suas apresentações de forma diacrônica – da primeira à última –, Diniz pontuou a importância do grupo teatral fundado por Abdias do Nascimento e relembrou sua relação com a ex-orientadora de graduação, Leda Maria Martins. Segundo o pesquisador, compreender o teatro de Abdias é também compreender a formação da nacionalidade brasileira, já que “o TEN foi um propulsor de criação de linguagem no Brasil, uma ágora de proposições de imagens”, afirmou. 

Seguindo a mesma esteira, o ator Linconl Oliveira destacou que houve uma mudança no cenário teatral brasileiro: “Abdias racializa o teatro e a crítica, o que antes estava no âmbito do folclórico”

Da esquerda para a direita: Guilherme Diniz, Lincoln Oliveira, Paulo Guidelly e Eugênio Lima em mesa sobre Abdias do Nascimento no Festival Melanina Acentuada (Foto: Laboratório Z, divulgação).

Se, como observou Linconl Oliveira, outrora o teatro negro estava no âmbito do folclórico, Paulo Guidelly faz um percurso por sua vida no teatro e na universidade, apontando o apagamento do TEN nas ementas das disciplinas e lembrando que leu muitos textos dramáticos em que o negro ocupava posições estereotipadas. Segundo o ator, o conhecimento sobre o TEN e sua relação com a modernidade brasileira e a questão racial só veio após a formatura: “Me formei sem ter acesso às referências teatrais negras”. Só depois de deixar a universidade, contou, “tive acesso às nossas narrativas”.

Na segunda e última rodada de perguntas, o foco recaiu sobre os “outros dramas”. Diniz pontuou como o TEN dialogava com os debates sociais e raciais do Brasil definiu o grupo como “o grande articulador do seu tempo, o sismógrafo do Brasil no século XX”, explicando que via “o palco do TEN como possibilidade de medir os tremores nacionais”. 

Os atores também falaram sobre a preparação para realizar a peça. Linconl Oliveira destacou o caráter multiartístico do homenageado, o que o levou a se preparar bastante para o papel e compor o personagem: “Estudei o Abdias por várias linguagens”, afirmou. 

Paulo Guidelly relembrou a trajetória de Abdias do Nascimento, ressaltando como ele foi um sujeito autodidata e sobre o período antes da criação do TEN, quando fez teatro no Carandiru. Para o ator, a experiência demonstra como Abdias compreendia o teatro como instrumento de transformação social, capaz de transformar um espaço de encarceramento em um espaço de produção artística, pensamento que posteriormente desembocaria na criação do TEN. 

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