Ensaio

A metafísica está em toda parte. Ensaio de José Enrique Barreiro.

Na comemoração dos 70 anos de Grande Sertão: Veredas, o escritor José Enrique Barreiro questiona como lemos o romance de Guimarães Rosa. Capa: Jornal da USP/ Reprodução Na entrevista que deu ao professor e…

Na comemoração dos 70 anos de Grande Sertão: Veredas, o escritor José Enrique Barreiro questiona como lemos o romance de Guimarães Rosa.

Capa: Jornal da USP/ Reprodução


Na entrevista que deu ao professor e jornalista Fernando Camacho, em abril de 1966, e só publicada onze anos depois pela revista Humboldt, João Guimarães Rosa declarou:

“A minha concepção do mundo não é de verdade material, objetiva… Essa realidade objetiva não existe, eu não acredito nela, é apenas aparência. A verdade, a verdadeira realidade é outra coisa para além deste mundo objetivo, outra coisa […] A explicação realista nada explica, porque na verdade todos os vivos atos se passam longe demais. A verdadeira causa das coisas não é material“.

A concepção mística de Guimarães Rosa está presente em toda a sua obra. Em correspondência com seu tradutor alemão Curt Meyer-Clason, publicada pela Nova Fronteira em 2003, ele evidenciou esse caráter central de sua literatura: 

“Todos os meus livros são simples tentativas de rodear e devassar um pouquinho o mistério cósmico, esta coisa movente, impossível, perturbante, rebelde a qualquer lógica, que é a chamada ‘realidade’, que é a gente mesmo, o mundo, a vida”. 

Sua obra máxima, o romance Grande sertão: veredas, publicado há exatos 70 anos, confirma essas e outras declarações de nosso grande escritor. 

Os territórios do romance 

Nos três principais territórios em que está assentado o livro (o sertão e suas conflagrações, a linguagem e suas rupturas e a metafísica e seus escuros), os dois primeiros são os mais evidentes e já exaustivamente analisados pela nossa crítica. 

O fato de o romance decorrer no espaço do sertão quase que condena a obra de Rosa ao signo do regionalismo, reducionismo do qual o autor não discordava, embora ampliasse esse carimbo ao infinito, conforme explicou em entrevista a Günter Lorenz, em janeiro de 1965, publicada no livro Guimarães Rosa, organizado por Eduardo F. (Civilização Brasileira, 1991): 

“Sou regionalista porque o pequeno mundo do sertão […] este mundo original e cheio de contrastes, é, para mim, o símbolo, diria mesmo, o modelo do meu universo”. 

O pequeno mundo do sertão, a que Rosa se refere, é grande. O título da obra não deixa dúvidas. E já no primeiro parágrafo, Riobaldo, o narrador, o dimensiona: 

“Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade”. 

Nesse espaço onipresente (“O sertão está em toda parte”, costuma lembrar Riobaldo), conflagrado por intensa movimentação política e econômica, com as consequentes lutas entre coronéis e seus bandos de jagunços, vivem homens de extrema coragem e valentia – atributos, porém, insuficientes para superar o impedimento que atravessa o romance: a história de amor entre os jagunços Riobaldo e Diadorim. 

Muito o que pode ser dito sobre o sertão já foi expresso pela crítica e pelo autor. O mesmo ocorre com o segundo território, a chave poética da obra, espetáculo linguístico inigualável em toda a história da literatura brasileira. 

Grande Sertão: Veredas cumpre extraordinariamente o projeto poético de Rosa, que nove anos antes da publicação do livro, em carta ao seu tio Vicente, apontava os limites linguísticos da escrita em nosso país: 

“A língua portuguesa, aqui no Brasil, está uma vergonha, uma miséria. Está descalça e despenteada; mesmo para andar ao lado da espanhola, ‘ela não tem roupa’. Empobrecimento de vocabulário, rigidez de fórmulas e formas, estratificação de lugares comuns, como caroços num angu ralo, vulgaridade, falta de sentido de beleza, deficiência representativa. É preciso distendê-la, destorcê-la, obrigá-la a fazer ginástica, devolver-lhe músculos. Dar-lhe precisão, exatidão, agudeza, plasticidade, calado, motores”. 

Em entrevista publicada pela revista O Cruzeiro, em dezembro de 1967, um mês após a morte de Rosa, seu projeto revolucionário para a língua portuguesa permanecia vivo. Disse ele:

“No Brasil a linguagem ainda não se libertou, está virgem. Há um campo imenso para explorar novas formas, flexibilidade, maior expressividade. Em suma: é preciso cultivar a expressividade da língua”. 

O terceiro território, a chave do romance e de toda a sua obra, curiosamente, é o que tem estado menos presente entre os críticos, apesar de ser, de acordo com o próprio Rosa, o mais relevante. Em artigo publicado no Cadernos de Literatura Brasileira, do Instituto Moreira Sales, Francis Utéza, autor de JGR: metafísica do Grande sertão (Edusp, 1994) confirma: 

“A cada vez que se exprimiu a respeito de sua obra, João Guimarães apontou o que qualificava de ‘valor metafísico-religioso‘ como chave essencial, convidando o leitor a desentranhar na sua literatura aquelas paragens mágicas ‘semicamufladas sob os buritis e os capins‘ do regionalismo imediato”. 

Por que está fechada a janela metafísica? 

As afirmações místicas de Rosa podem soar dissonantes nestes tempos de lonjuras metafísicas. Mas não é possível fugir delas como se fossem algo exótico, licença poética, momento de desvario ou coisa que o valha. É certeza categórica do nosso grande escritor. É convicção raiz de sua vida e sua obra. 

Não se trata aqui de debater a visão mística de Guimarães Rosa, muito menos o drama metafísico da humanidade, que remonta a tempos imemoriais. Mas é necessário, imprescindível mesmo, anotar que esse drama tem estado ausente de nossa literatura. E, quando surge, passa batido pela intelectualidade crítica. 

A percepção de Rosa sobre o mundo, presente de modo fundamental em sua literatura, não tem sido levada em conta como deveria. Há exceções, mas as interpretações predominantes de Grande Sertão: Veredas preferem restringir-se ao campo da linguagem inovadora, às lutas políticas do sertão, à sociologia do jagunço e ao impedimento amoroso entre Riobaldo e Diadorim. 

É certo que o Grande Sertão é riquíssimo de possibilidades interpretativas. Há muito ali o que tratar, e esses aspectos não podem ser descartados. 

Mas os refletores direcionados para a linguagem e a sociologia deixam de iluminar o que parece ser um dos pontos cruciais da obra, senão a sua própria centralidade: a relação de Riobaldo com o mistério da vida, suas indagações metafísicas (a toda hora apresentadas ao interlocutor) e sua ânsia de compreender uma existência repleta de paradoxos e de ausência de respostas objetivas. 

O que ocorre – sejamos honestos – é uma certa aversão à metafísica ou a qualquer tentativa de percepção exterior à realidade social e política em que vivemos. Leituras críticas não vinculadas a tais predisposições são muito pouca e suas razões não parecem claras. Compreendê-las em profundidade é trabalho para uma longa reflexão, algo distante das pretensões deste artigo. Duas hipóteses, entretanto, podem ser consideradas desde já. 

A primeira é o predomínio da descrença em uma visão mística da existência. Quando se trata de um escritor como Rosa ou de poetas como Adélia Prado e Murilo Mendes, essa visão é vista como excentricidade aceitável, perdoada e colocada na conta de uma espécie de analfabetismo existencial. 

A segunda hipótese é mais grave. Seria algum tipo de impugnação cultural? Mais grave porque seria uma atitude que, mesmo reconhecendo a dimensão transcendente do ser, prefere abster-se de comentá-la honestamente. 

O empírico não é o todo 

Para grande parte da intelectualidade brasileira o empírico constitui toda a realidade. Só a experiência imediata e visível é matéria de literatura. Quase não há espaço para a metafísica, a espiritualidade, a transcendência, tidas como instâncias irreais, apartadas da realidade objetiva do mundo, este renitente vale de lágrimas povoado por dramas existenciais decorrentes de conflitos histórico-culturais. 

A realidade, porém, para Rosa, é infinitamente maior que o mundo empírico.

Entretanto, como se oferecesse risco à grande área da visão filosófica corriqueira, restrita a reconhecer apenas o ser no mundo objetivo, e nada além, o misticismo de Rosa e de outros é atirado, prudentemente, para escanteio. Escanteio, porém, é solução transitória. A bola retornará à grande área, pois a unidade entre ser no mundo e ser transcendente é tensão presente, em maior ou menor grau, na vida de todos os humanos. É mistério que remonta ao princípio da filosofia e que permanece insolúvel. Como deve ser.

O campo da metafísica não é de confirmações, mas de reflexões e, principalmente, de experiências. É o que faz Riobaldo. Ele conta sua vida. Mas não é a narrativa dos fatos de sua vida que o inquieta. É a falta de certezas, são as questões existenciais, é a dúvida: Deus existe? 

Em sua obra, Rosa propõe abrir a janela metafísica. Na entrevista a Fernando Camacho, nosso grande escritor confirma: 

“A explicação realista nada explica, porque na verdade todos os vivos atos se passam longe demais. A verdadeira causa das coisas não é material“. 

Rosa deixar sangrar o mistério. Sabe que nem a filosofia nem a literatura terão respostas conclusivas – e nem é disso que se trata. Mistério é mistério. Se não o fosse, seria equação a ser resolvida, charada a ser decifrada. O que se requer – e que anda ausente do horizonte de nossa escrita – é a liberdade de ultrapassar a instância horizontal da vida e participar da pergunta que inquieta Riobaldo e continua a inquietar-nos a todos desde tempos imemoriais: afinal, do que se trata? 

Nascido em Salvador, Bahia, José Enrique Barreiro trabalha profissionalmente com a escrita desde os 16 anos de idade, quando ingressou como repórter no Jornal da Bahia. Nas décadas de 1970 e 1980 teve intensa participação nos meios culturais baianos como jornalista, crítico de arte, roteirista e diretor de televisão. Em 1997, já morando no Rio de Janeiro, publica O mapa do acaso, seu primeiro livro de poemas. Naquele mesmo ano, cria a Versal Editores, para a prestação de serviços editoriais e a publicação de livros de autores brasileiros e de outros países. A partir de 2018 dedica-se exclusivamente à literatura. Além de O mapa do acaso (1997, primeira edição, e 2020, segunda edição), publicou A lã das velhas ovelhas já não serve para a neve de amanhã (2021), Borda infinita (2022) e A dor que deveras sente (2025). Escreveu os infantis Declaração de amor (2014) e Quem advinha o que é? (2015), ambos com ilustrações de Jana Glatt. Gravou os álbuns Palavras que não guardam diamantes e O lugar do herói, disponíveis para audição no Spotify e em outras plataformas. É autor e intérprete do monólogo O rio tem sede de sal, metáfora da jornada humana em busca de seu destino central. Seus livros podem ser adquiridos no site versaleditores.com.br

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